A última quinta-feira, 27 de maio de 2010, poderia ser apenas mais umaquinta-feira, entre tantas quintas-feiras (e mais um maio entre tantos outros maios). Mas não foi. E isso não se deve ao fato de que, depois de
três semanas de desgastantes manifestações, mais uma vez algo em torno de três mil pessoas retornaram às ruas para protestar contra o aumento da tarifa de ônibus e pelo passe livre. Por isso, estas linhas que seguem não serão o relato de mais uma manifestação. A rebeldia da juventude desta cidade, ao menos nos últimos seis anos, já faz parte de uma certa tradição – já possui enraizamento nesta Ilha. A todos esses rebeldes, meus companheiros, este texto é dedicado. Se essa é a razão pelo qual lhes dedico, outra é a razão pela qual escrevo neste momento. Algo de especial gravidade ocorreu naquele 27 de maio – tão grave que não me deixa calar. Por volta das oito horas da noite, na Rua Artista Bittencourt, do alto de algum
prédio próximo, um objeto (mais especificamente, um vaso) foi lançado em direção aos manifestantes que lá estavam. O vaso passou a menos de 50 cm de minha cabeça e, por sorte, atingiu um carro. Se alcançasse seu destino, este texto não estaria sendo escrito.
Não é de hoje que manifestações populares causam um certo incômodo na população. Em geral, pessoas perdem preciosos minutos de sua atarefada vida. O direito de ir e vir dos carros é sacrossanto – é ele que define nossa liberdade, a autodisposição sobre nossos corpos. Nada – quer dizer, especialmente estudantes – pode restringi-lo. Aliás, engarrafamentos colossais em horários de pico, na ponte e em demais regiões da cidade são toleráveis. Já engarrafamentos causados por manifestantes, jamais. Aquele senhor pode até simpatizar com o movimento, com a indignação frente a mais um aumento abusivo da tarifa de ônibus. Mas quando estudantes impedem sua livre circulação na Av. Mauro Ramos, ou simplesmente perpassam a rua de sua casa, um sentimento maior que a indignação toma posse de seu corpo: esse pacÃfico sujeito, sempre fiel à ética e à legalidade, adota a postura da revolta. Revolta materializada no arremesso de um recipiente de barro na cabeça de outras pessoas.
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